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Quando Deus demora

relogio

Salmos 94.18,19

Às vezes parece que Deus se esqueceu de nós. Planejamos e prevemos tudo direitinho, dedicamos tempo, estudos, esforços, trabalho, oração. Enfim, fazemos “nossa parte”. No entanto, parece que os nossos projetos ficam cada vez mais distantes. Isto acontece em diversas situações: o emprego ou vocação com que sonhamos, a aprovação no vestibular, o amor que não aparece, este ou aquele sonho que não se realiza. Chegamos até a fazer uma avaliação de nossa comunhão com Deus. Será que não somos nós que estamos nos esquecendo de Deus, negligenciando a Palavra, a oração, o amor ao próximo, o serviço cristão ou algum outro aspecto de nossa relação com Deus? Esta auto-avaliação é necessária. Devemos fazê-la de vez em quando.

Porém, se mesmo assim nossos sonhos insistem em se afastar de nós, o questionamento permanece: Por que Deus demora tanto? Será que ele se esqueceu de mim? Devemos descartar de vez esta última alternativa, pois a Bíblia diz que ainda que uma mãe se esqueça do filho que amamenta, Deus jamais se esquece de seus filhos (Is 49.15).

Como entender, então, a demora de Deus? Diversos personagens bíblicos também passaram pela angústia da espera. Foi assim com Jó, Davi, Paulo, Abraão e outros. No entanto, especialmente no mundo imediatista de hoje precisamos entender que nem sempre estamos em sintonia com o tempo de Deus. Pois, “mil anos é para Deus como o dia de ontem que se passou “(Sl 90.4). E o contrário também é verdade: “Um dia é para Deus como mil anos” (2 Pe 3.8).

Na sociedade em que vivemos somos constantemente bombardeados pela imposição do cumprimento de prazos, datas, metas, objetivos, índices. Tudo já está predeterminado pelas perversas leis de homogeneização, enquadramento e exclusão social. Tem idade e prazo marcados para tudo: faculdade, casamento, mercado de trabalho etc.

Não creio que devamos nos render cegamente a esse sistema perverso, o qual tem provocado sérios distúrbios psíquicos. Esta compreensão do tempo (kronos) nos atrapalha a entender e aceitar o tempo de Deus (kairos), que significa o momento da ação de Deus em nosso tempo (o kairos de Deus invade o nosso kronos). Para perceber isso é preciso estar atento, sensível à voz do Espírito e às oportunidades. A hora de Deus precisa ser agarrada, aproveitada, “remida” (Cl 4.5), senão se esvai inutilmente.

A experiência de Abraão

Quando estava em Ur dos caldeus, Abraão recebeu o chamado e a promessa de Deus. O Senhor prometera abençoar-lhe, fazendo dele uma grande nação, cuja descendência seria mais numerosa que as estrelas do céu. E mais: prometeu, por meio dele, abençoar todas as nações da terra (Gn 12.3).

No entanto, isso implicava espera, perseverança, obediência. Atendendo ao chamado divino, Abraão deixa Arã com a idade de 75 anos e se estabelece na terra prometida. As primeiras dificuldades logo apareceram. Houve na terra uma grande fome e Abraão teve que ir para o Egito. Lá, temendo pela própria vida, mentiu ao rei acerca de sua esposa, dizendo ser apenas sua irmã. Chegou até a conseguir alguns favores do rei.

No capítulo 13 de Gênesis Abraão e Ló retomam à terra prometida. Ló escolhe ficar na planície do Jordão, terra irrigada e fértil. Novamente Deus reafirma a promessa de dar a Abraão e sua descendência toda a terra de Canaã. No entanto, no capítulo 14, na campanha dos quatro reis, Ló é levado cativo. Sabendo disso, Abraão e seus aliados armam uma ofensiva contra os quatro reis e recuperam o sobrinho, familiares e bens.

Depois de tantos percalços (fome, exílio e guerra) a fé de Abraão começou a vacilar. Será que Deus iria de fato cumprir sua promessa? Por que estava demorando tanto? A essa altura Abraão já estava mais idoso, o que representava um problema a mais.

Deus, conhecedor da fragilidade humana, reafirma no capítulo 15 a sua promessa. Abraão questiona: “Continuo sem filho”. E lembra a tradição da época: “Um dos servos da minha casa será meu herdeiro”. Deus, então, diz expressamente, eliminando qualquer possibilidade de dúvida: “Não será esse o teu herdeiro, mas alguém saído do teu sangue’’ (v. 4). Deus pede de Abraão um ato de fé, um culto. Cultuar é ato de fé. E o culto também alimenta a fé, como aconteceu com Abraão na teofania que se seguiu, quando Deus reafirmou suas promessas. Ele sempre se manifesta a nós no momento de culto, e o faz de diferentes formas, mas, principalmente, por meio da sua Palavra.
Mesmo assim a dúvida ainda assaltava o coração de Abraão, que resolveu “dar uma mãozinha” a Deus, quem sabe um “jeitinho judeu” para adiantar as coisas (capítulo 16). Foi assim que deixou de ouvir a voz de Deus e “ouviu a voz de Sarai”: “Vê, eu te peço: Deus não permitiu que eu desse à luz. Toma, pois, a minha serva Agar. Talvez por ela eu venha a ter filhos” (v. 2).

Desta forma Abraão deixou o caminho de Deus para seguir um atalho próprio. Sua ajuda resultou no seu afastamento da promessa divina e trouxe sobre si e sua descendência graves conseqüências. A guerra entre judeus e árabes nasceu dessa desobediência de Abraão; nasceu dentro da tenda de Abraão. Isaque era o filho legítimo, o herdeiro. Ismael, no entanto, o primogênito. Que situação difícil! Intrigas e competições no passado; tiros e mísseis hoje.

Uma nova oportunidade

A demora de Deus, ou ansiosa solicitude pela vida, pode fazer-nos fraquejar em nossa fé. Quando isso acontece deixamos os caminhos de Deus para buscar nossos próprios atalhos. Foi o que aconteceu com Abraão, mas Deus lhe deu uma nova oportunidade. Deus sempre nos concede a oportunidade de recobrarmos a esperança e a fé. Sem isso não podemos viver. Paul Tilich disse: “Fé é estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente, e a ela se subordinam todas as preocupações provisórias. A preocupação incondicional empresta a todos os outros interesses a sua profundidade, direção e unidade, fundamentando assim o ser humano como pessoa”. Para esse teólogo, a fé está na infra-estrutura do ser humano, sendo elemento integrador de sua psique. Por isso, disse; “Do ato de fé participa todo nervo do corpo humano, toda aspiração da alma, todo impulso do espírito humano” (Dinâmica da Fé, Sinodal, p. 68-69).

Portanto, o drama vivido por Abraão no capítulo 22 não nos dá o direito de pensar em Deus como um sádico, isto é, um Deus que se deleita com o sofrimento humano. Muito pelo contrário. O momento difícil vivido por Abraão foi a nova oportunidade dada por Deus, a fim de que a sua fé fosse restaurada. Abraão viveu o seu Getsêmani, via crucis e subiu o seu calvário. Mas foi exatamente nessa angústia de alma que ele reafirmou a sua fé, entendeu que não precisava dos próprios atalhos e que podia trilhar o caminho de Deus, ainda que por vezes espinhoso e demorado.

Por isso, diante da incômoda pergunta de seu filho Isaque – “Onde está o cordeiro?” – Abraão pôde responder confiantemente: “Deus proverá para si o cordeiro”. Foi exatamente isso que Deus fez ao contemplar a perseverança de Abraão, chegando quase a sacrificar o seu filho. Deus o chama, livra o seu filho, mostra-lhe o cordeiro, reafirma as suas promessas e cumpre-as.

Porventura não acontece exatamente isso conosco? Por vezes não sentimos a amargura do Getsêmani, a dureza de uma via crucis e o terror de um calvário, parecendo que Deus se esqueceu de nós e que as suas promessas se perderam? O que fazer? Precisamos entender que o tempo de espera pode ser tempo de crescimento e amadurecimento pessoal; tempo de perseverança e fortalecimento da fé; tempo de estudo da Palavra e oração; tempo de construir relações saudáveis; tempo de servir, e a propósito, quanto tempo dedicamos ao próximo neste mundo que insiste em separar as pessoas e transformá-las em objetos de utilidade?

Também é fundamental viver o presente e realizar projetos mais imediatos, pois estes podem ser o caminho para projetos futuros. E se algo do que sonhamos não se realiza, precisamos entender que vivenciamos também as contingências de uma realidade econômica, social e política que nem sempre nos é favorável.

Certa vez, uma professora da Escola Bíblica Dominical estava contando a história do sacrifício de Isaque para uma classe infantil. Falava com muitos detalhes e com tal emoção e ênfase que as crianças quase que podiam ver toda a cena diante dos seus olhos. Então, uma delas, aterrorizada, disse: “Chega, professora! Esta história é terrível demais. Por favor, pare!” Uma outra respondeu: “Deixe de ser boba. Esta é uma história de Deus, e as histórias de Deus sempre terminam bem”.

Não importam os prazos, as datas e os limites impostos pela sociedade (kronos). O que importa mesmo é que as coisas aconteçam em nossas vidas no tempo de Deus (kairos), para que as nossas vidas se tornem histórias de Deus. Que o Seu Espírito Santo nos fortaleza nesse sentido.

Amarildo Firme

Comentário para “Quando Deus demora”

  1. o amor de cristo nos une, temos que ser fortes e perseverantes para que mau não nos separe.
    assim é a umanida!!!
    que Deus nos abençoe.

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