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A mulher e as estações do ano
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A maioria das mulheres gosta de observar e mexer com plantas. Há certo encanto em fazer com que uma mudinha delicada cresça e dê folhas viçosas, flores e frutos. Esse processo nos toca de modo especial, lembrando a própria maternidade.

Comecei a pensar sobre as plantas e nossa vida e quero repartir o que aprendi sobre nossa vida emocional com as árvores. Num determinado contexto, Deus fala: “os dias do meu povo serão como os dias da árvore” (Is 65.22).

Como iniciam os dias da árvore? Se observamos a pequena semente ficaremos maravilhadas com o fato de todo o seu potencial estar armazenado num minúsculo grão. Mas, para que todas as características da árvore apareçam, ela necessita de certas condições especiais.

Em primeiro lugar, a semente deve ser colocada numa terra fértil, que lhe dê as condições para germinar. Pensando no bebê, que ele tenha uma mãe (terra) com um útero morno que acolha a semente e a nutra. Que ao nascer tenha o colo que o aconchegue e o leite que o sacie. Não é necessário ter mãe perfeita, mas sim uma que perceba a necessidade específica de cada momento, para atendê-la no mais breve tempo possível.

No caso da árvore, que ela tenha luz e água na medida. Sabemos que certas plantas precisam de mais água ou luz que outras. Assim, também uma mãe atenta às diferenças entre seus filhos poderá satisfazer melhor às suas necessidades.

O que acontece às plantas que não recebem nutrientes adequadamente? Quando falta água não haverá muito crescimento; quando há água demais, pode apodrecer.

Da mesma forma, nós também sofremos deformações. Podemos crescer mirradas e ressequidas por falta de cuidados ou então sermos maiores que o normal, mas criadas em estufa. As plantas que ficam belas somente dentro do ambiente superprotegido não aprenderam a se defender do sol, da chuva e do vento. Foram criadas por pais que não souberam a hora de encorajar a sair e aprender a enfrentar a vida.


Aprendendo com as Estações do Ano

Podemos aprender algo sobre nós ao observar a árvore nas diferentes estações do ano.Gostaria de iniciar com a primavera.

Não é por nada que as moças são chamadas de “brotos”. Parece que da mesma forma como Deus fez a natureza mais bela nesta época, também para as mulheres a juventude é a época de maior beleza física. Pela botânica, sabemos que para as flores a beleza tem uma função vital – atrair abelhas e pássaros para que as polinizem, a fim de que haja frutos.

Podemos fazer uma comparação refletindo que é nessa fase que a mulher está mais enfeitada e que está mais aberta para aceitar coisas de fora dela – ideias que frutificam em convicções para toda a vida, escolhas profissionais e a escolha um de companheiro para a vida. Assim como nas plantas, é o instinto de preservação da espécie que põe em marcha a sexualidade. Mas, justamente por ser algo tão forte, acabam acontecendo dificuldades. Uma delas é encontrar o equilíbrio na valorização do corpo.

A base para se sentir uma mulher com beleza interior e exterior vem do que foi incentivado nela na infância. Se ambos os lados tiverem sido bem dosados, provavelmente é assim que a jovem se conduzirá. A menina de ontem sente que agora se tornou uma mulher apreciada pelo seu corpo, mas isso não será  suficiente para ela; sentir-se-á atraída por quem também apreciar as flores da emoção, do espírito e do intelecto.

Nem sempre, porém, as coisas ocorrem assim. Podem surgir distúrbios nessa estação. Um deles é, justamente, não conseguir entrar na primavera. Algumas mulheres não conseguem descobrir o seu encanto, a sua graça. Pode ser por insegurança, já que nunca se sentiram apreciadas quando meninas. Outras vezes pode ser que haja medo de florescer, porque a beleza é sentida como algo muito perigoso. É preferível viver descolorida, a correr riscos de descontrole.

Outro distúrbio encontrado quando a árvore não quer sair da primavera: Mulheres que querem ficar eternamente em formato de botão. Têm medo que relacionamentos mais profundos possam alterar esse estado. Tornam-se superficiais e não conseguem ligar-se num parceiro para a vida. Pensam que, se deixarem cair a flor e crescer o fruto, vão perder o encanto. Temem ficar deformadas se tiverem filhos, não conseguindo perceber a beleza das próximas fases.

O verão é a época de caírem as flores e darem lugar aos frutos. Quase invisíveis, a princípio, pouco a pouco vão tomando forma, adquirindo cor, sabor e conteúdo. Para a mulher, é uma fase muito bonita, em que sente que no seu interior algo muito precioso está se desenvolvendo. O poder conceber um filho em amor, senti-lo crescer dentro de si e vê-lo nascer é a experiência mais profunda que a mulher pode ter com seu corpo.

Essa alegoria dos frutos não vale só para ter filhos, pois é nessa fase de mulher adulta que são geradas muitas ideias e ações. A base da criatividade é ter a sensação de que de dentro de si pode “nascer” algo muito bom.

Quais as doenças do verão? Uma delas é justamente a incapacidade de criar. Há pessoas que se sentem estéreis porque não creem que haja algo de valor dentro delas. Quase sempre o início dessa doença ocorre na infância, quando os pequenos frutos da criança não foram devidamente apreciados.

O outono é a época das árvores carregadas de frutos maduros. Olha-se para a árvore e ela nos passa a sensação de plenitude, de ter chegado ao auge. Mas, ao mesmo tempo, percebe-se que a planta está no seu limite de suportar tanto peso.

Assim também a mulher que está prestes a dar à luz nos passa uma idéia de plenitude, mas também de ter chegado aos limites do que pode carregar. A expectativa do nascimento próximo é que dá o suporte dos últimos dias.

Todo o processo de criação de filhos pode ser comparado ao outono em que eles vão crescendo e um dia irão se afastar das árvores-pais para, por sua vez, se desenvolverem e darem seus próprios frutos.

Nesse processo podem surgir também distúrbios. Muitas mães têm dificuldade em largar seus frutos. Consideram seus filhos como suas propriedades. Misturam-se com o seu produto e não se dão conta de que com isso impedem que seus filhos sigam o caminho natural. Estão impedidas de ver a beleza que há no outono, com folhas e frutos coloridos caindo no chão, embelezando a natureza e saciando quem tem fome.

Talvez não se queira largar os frutos porque se teme o inverno. No sul do Brasil, inverno é tempo de muito frio, chuva e neblina. Tempo em que as árvores cessam o crescimento exterior. Elas aparecem secas e vazias no meio da intempérie.

Como é difícil lidar com os vazios de nossa vida! Chamo assim os períodos que se seguem àquelas fases de plenitude, em que cessam certas atividades que conferiam sentido ao nosso dia-a-dia. São crises como a depressão pós-parto, saída dos filhos, aposentadoria, menopausa.

Também aqui a árvore pode nos ensinar algo. No inverno ela não produz nada e descansa da atividade intensa que teve com os frutos. Mas internamente ela está viva, recompondo energias e armazenando nutrientes. Ela está se preparando para a próxima primavera.

Também no nosso ciclo natural cabem “paradas”. São épocas de não produzir nada visível, mas deixar que dentro ocorram reflexões que nos orientem e nos situem de novo na vida. Muitas vezes temos a tendência de julgar mal a pessoa que cessa suas atividades, principalmente no meio eclesiástico. Nossa mentalidade ocidental, sempre voltada para a prática, não concebe que possa ser sinal de saúde espiritual poder parar e se concentrar no intenso processo que está ocorrendo no íntimo. E que depois do inverno silencioso mas vivido intensamente na presença de Deus, há de surgir nova primavera radiante, com frutos mais saborosos, porque a árvore armazenou toda a energia de que precisava. Nosso ativismo faz com que queiramos pular esta estação e depois nos falta energia para florescer e frutificar com plenitude.

Outra dificuldade do inverno é a crise da menopausa. Os frutos biológicos cessam e muitas mulheres sentem que todo seu valor como pessoa também cessa. Acham que agora vai ser sempre inverno.

Novamente a árvore nos faz pensar que pode ter chegado a hora de deixar de florescer aqueles galhos que ficaram atrofiados enquanto os filhos ocupavam o maior lugar. Velhos sonhos, hobbies, ocupações podem finalmente ter um lugar ao sol.

Quero ainda me referir aos invernos acidentais. São pragas que fazem cair as folhas, ventos que quebram galhos, queimadas que nos atingem. São árvores companheiras que cresceram entrelaçadas conosco e que tombam, levando alguns galhos nossos juntos. Assim, sentimos as mortes e separações, e tal como as árvores, ficamos desfiguradas e perdemos nosso viço. O que fazer? No início, nada, talvez. Só se permitir viver esse inverno doloroso, crendo que dentro de nós, pouco a pouco, inicie a restauração. Esperar que a graça de Deus e o calor dos amigos possam cicatrizar as feridas, e que no seu devido tempo brotem novos galhos no lugar daqueles que tombaram, e que daqueles galhos nascidos no meio da dor possam brotar flores e crescer frutos baseados na confiança de que “enquanto a terra durar, não deixará de haver semente e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gn 8.22).

Karin Hellen Kepler Wondracek
Psicóloga, Porto Alegre – RS

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