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Desafios de Frutificar na Velhice
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Na África se diz, quando morre um ancião, que desaparece uma biblioteca. Talvez o provérbio varie de um continente a outro, mas seu significado é igualmente certo em qualquer cultura. As pessoas idosas são intermediárias entre o passado, o presente e o futuro. Sua sabedoria e experiência constituem verdadeiro vínculo vital para o desenvolvimento da sociedade.

Estudos afirmam que até 2050, o número de idosos aumentará em aproximadamente de 600 milhões para quase 2 bilhões. No decorrer dos próximos anos haverá no mundo, pela primeira vez na História, mais pessoas de 60 anos do que menores de 15.

Trata-se de fenômeno extraordinário com consequências para cada comunidade, cada instituição e cada pessoa, jovem ou velha.

À medida que aumenta o número de pessoas que se mudam para as cidades, as pessoas idosas perdem seus relacionamentos sociais e o tradicional apoio familiar e se veem cada vez mais expostas à exclusão.

As pessoas idosas não são mais uma categoria à parte, como estavam sendo consideradas. Todos envelheceremos algum dia, se tivermos esse privilégio.

Portanto, não consideremos os idosos como um grupo à parte, mas sim como nós mesmos seremos no futuro.  E reconheçamos que todos os idosos são pessoas individuais, com necessidades e capacidades particulares e não um grupo em que todos são iguais por que são velhos.

 

Sonho de juventude e vida eterna

De acordo com o Dr. Salo Buksman, Diretor de Defesa Profissional da SBGG-RJ, o sonho da juventude e da vida eterna é acalentado pelo homem desde as mais remotas eras da humanidade.

O recente aumento da longevidade da raça humana foi decorrente de diversos fatores como a melhoria nas condições sanitárias, nutrição, vacinação e avanços terapêuticos da medicina moderna.

A adoção de um estilo de vida saudável desempenha um papel fundamental para quem almeja uma vida longa e livre de doenças, porém exige dedicação e disciplina difíceis de serem adotadas e mantidas.

Por outro lado, também é antiga a proposta de elixires mágicos da juventude, com efeitos miraculosos e sem sacrifícios para o paciente.

Atualmente, com a facilidade proporcionada pela comunicação eletrônica, promove-se qualquer produto, com pouca vigilância e praticamente nenhuma punição. Megadoses de vitaminas, hormônios e mesmo substâncias como anestésicos locais (procaína) e fitoterápicos são vendidos como fontes de “antienvelhecimento”, com um lucro, somente nos Estados Unidos, de 4 bilhões de dólares por ano.

Na verdade, são drogas cujos supostos efeitos benéficos são desprovidos de qualquer evidência científica séria, iludindo a boa-fé do público e da mídia, que tendem a acreditar no profissional de saúde.

Além da possibilidade de reações adversas, frequentemente o indivíduo que se torna usuário desses pseudo-rejuvenescedores abandona medicamentos essenciais, como anti-hipertensivos ou hipoglicemiantes, com repercussões extremamente negativas para sua saúde.

 

Estratégias psicológicas para a velhice bem-sucedida

A Dra. Anita Néri, em matéria traduzida para a Revista Terceira Idade (Sesc-SP,jun. 2006),  esclarece que além de políticas sociais, estruturas de apoio amigáveis à velhice e políticas de saúde preventivas e corretivas, há estratégias para se manejar a jornada do envelhecimento nas idades mais avançadas, incluindo estratégias psicológicas de manejo da vida.

Resumiu também uma teoria do manejo eficaz da vida, articulada e testada por Margaret Baltes, Paul Baltes e seus colegas, ao longo dos últimos dez anos. Trata-se da teoria de otimização seletiva com compensação.

A teoria de otimização seletiva com compensação parte do princípio que, ao longo das várias etapas do curso da vida, mudam os meios e as metas e, com isso, as formas de alocação de recursos.

Nas fases iniciais da vida, prevalece o investimento em processos de ganho (crescimento). Com o envelhecimento, os recursos passam a ser cada vez mais investidos em manutenção e correção.

Nosso exemplo favorito do significado psicológico de otimização seletiva com compensação vem de uma entrevista com o pianista Rubistein, aos 80 anos de idade.

Quando lhe perguntaram como conseguia ser um grande pianista com aquela idade, ele citou três razões: tocava menos peças, praticava-as com mais frequência do que no passado e usava contrastes no andamento para simular que estava tocando mais depressa do que realmente era capaz.

Rubistein reduziu seu repertório (seleção).  Isso lhe permitiu praticar mais cada peça (otimização).  Finalmente, usou contrastes na velocidade para mascarar as perdas de velocidade na mecânica do dedilhado, um caso de compensação.
O caso de Rubistein é um exemplo clássico daquilo que a Psicologia aponta como estratégia-chave de envelhecimento eficaz.  Pessoas que selecionam, otimizam e compensam estão entre as que  se sentem melhor e que são mais atuantes.

Na velhice, a arte de viver consiste numa busca criativa de novos e menores territórios do que aqueles que se administrou no passado.  O mesmo vale para as culturas.  Culturas que oferecem aos idosos novas formas de seleção, otimização e compensação são as que mais os ajudam a maximizar os ganhos na velhice.

A imagem de territórios menores nos traz à mente mais um exemplo de vida real, que devemos a Brim (1992).  Seu pai viveu mais de 100 anos, 103 para sermos exatos. Quando ainda era um idoso jovem, ele cuidava da fazenda, incluindo as colinas das vizinhanças. Aos 75 anos, passou a ter alguns problemas de mobilidade. Concentrou-se então em seu jardim. Aos 90 anos, mal podia andar e tinha deficiências de visão e audição. Nessa época, passou a se dedicar a plantas do interior. Mais tarde, concentrou-se nas flores da janela que ficava perto de sua cadeira na sala de estar.  A janela tornou-se o centro de suas atenções e de seu bem-estar subjetivo.

Nos escritos do grande épico grego Hesíodo, há um ditado que traduz perfeitamente a estratégia de envelhecimento bem-sucedido dessa pessoa: “Metade pode ser melhor do que o todo”.

 

Uma velhice frutífera

Pense na oração de Paulo aos cristãos de Colossos: “E oro para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em todo boa obra, crescendo no conhecimento de Deus” (Cl 1.10) e na afirmação do salmista “Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes” (Sl 92.14).

Os idosos podem contribuir mais do que nunca para a sociedade e, de fato, assim o fazem.  Se incentivarmos sua participação ativa na sociedade e no desenvolvimento, podemos estar certos de seu talento e experiências inestimáveis. Os idosos que podem e querem trabalhar devem ter a oportunidade de assim o fazer e todas as pessoas devem ter a oportunidade de continuar aprendendo ao longo da vida.

Não devemos ser galhos secos na videira. Foi por falta de frutos espirituais que Israel foi rejeitado por Deus e retirado da terra prometida:  “Efraim (Israel) está ferido, sua raiz está seca, eles não produzem frutos” (Os. 9.16).Azevedo (2000, p. 26-27) revela-nos os frutos que se esperam na velhice dos justos:

Sabedoria, mais conhecimento da vontade e dos caminhos de Deus. Sabedoria que tem por princípio, por fundamento ou alicerce, o temor do Senhor e que se expressa na capacidade de aplicar o conhecimento da Palavra e da vontade de Deus às situações concretas da vida;

Santidade de caráter, trabalhado e moldado pelo Espírito Santo, o que permite que os idosos.

Paciência em face das circunstâncias adversas e longanimidade, diante das pessoas adversas. E como isso é importante ao testemunho que o idoso pode dar;

Mente celestial, plena das coisas de Deus, mais movida por valores e preocupações espirituais, que materiais;

Preocupação com a salvação e felicidade dos outros, mediante oração, bom conselho e testemunho;

Ministério de oração e consolação, o maior bem que um idoso pode oferecer a seus filhos e filhas, noras e genros, netos, bisnetos e a toda constelação familiar, e a todas as pessoas de seu relacionamento;

Alegria, a alegria da fé, alegria do temor do Senhor que permite enxergar a mão providente do Eterno em todas as coisas a seu redor.

 

Bibliografia
Azevedo, I.P. Na Velhice ainda darão frutos. In:Bernardo, S.(Org) Idoso Ativo. RJ: Juerp, 2000.
Boletim SBGG-RJ – No. 26 – dez 2006
CYMBALA, Jim.  A Oração que vence barreiras. SP: Editora Vida, 2006.
Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento-II Assembleia Mundial do Envelhecimento – abril 2002 – Madri – ONU
Revista A Terceira Idade – Sesc-SP – jun 2006

 

Samuel Rodrigues de Souza

Arquivo Visão Missionária 2T07

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