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Pais e adolescentes – uma tensão saudável
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Já criei meus filhos, vivenciando todas as fases pelas quais eles passaram. Confesso que sempre gostei de adolescentes. Quando jovem, trabalhava com adolescentes na igreja. Entendo que é a fase mais rica na vida de uma pessoa e de quem está por perto. No entanto, por ser rica não quer dizer que seja a mais fácil. A riqueza da fase está exatamente nas dificuldades encontradas.

Ser adolescente e ser pai/mãe de adolescente não é fácil. Como pais e como filhos, gostamos da época da infância, que é despreocupada, alegre, sem grandes responsabilidades, afetiva, etc. A criança natural e solta dá espaço para a criança interna dos pais e ambas vivem momentos muito especiais.

Quando a pré-adolescência se instala, as preocupações dos pais, em especial, começam a surgir. As mudanças naturais iniciam e muitos não conseguem entender e administrar as novas situações. Os filhos que, até então, desfrutavam de toda a liberdade de uma criança, começam a se sentir cobrados e as mudanças internas passam a incomodar.

O crescimento é algo desejado e temido, tanto pelos pais como pelos filhos. Há um medo inconsciente de ambos diante das mudanças que estão acontecendo. Ambos enfrentam um mundo desconhecido. Mesmo que os pais já tenham tido experiência com outros filhos, cada um é especial. Não há fórmulas fechadas que, aplicadas, dão certo para todos. O que podemos realizar com um, nem sempre poderemos com o outro, mesmo sendo frutos da “mesma barriga”. Essa é a beleza de Deus ao nos criar únicos. Parecidos, semelhantes, mas não exatamente iguais. Apenas únicos. Nada mais. Essa é a angústia de muitos pais. Por que deu certo com um e não dá certo com outro? Não há varinha mágica, é preciso sabedoria para lidar com cada um individualmente.

Numa conversa informal sobre este assunto, uma amiga se referiu ao livro Adolescência Normal – Um enfoque psicanalítico*. Nele, os autores levantam a tese de que, por mais normal que seja uma adolescência, ela terá seus momentos de tumulto. É uma fase transitória da infância para o mundo adulto. Para enfrentar essa fase, os autores apresentam as perdas que normalmente acontecem na adolescência.

Perdas são sempre indesejáveis. Não gostamos de perder. Somos feitos para ganhar. As discussões entre irmãos, desde pequenos, são para saber quem é que ganha. No entanto, a vida nos ensina que para ganhar, precisamos perder às vezes.

Os autores apresentam três perdas que sofrem os adolescentes ou, como chamam, lutos. Viver o luto por uma perda é necessário para que se estabeleça o equilíbrio emocional de qualquer ser humano. Querer negar a dor emocional é enganar-se a si mesmo. Quando Jesus se encontrou com Marta e Maria e esteve no túmulo de Lázaro, seu amigo morto, ele chorou. Estava respeitando o seu luto pela perda de um amigo. Não significa que se vai chorar o resto da vida. Curtir o luto é dar tempo às emoções, para que a ferida aberta cicatrize. Não existe tempo certo e pré-determinado. Cada pessoa reage de uma forma. Cada uma tem o seu tempo e devemos respeitar.

O primeiro luto, segundo os autores, é o da perda do corpo infantil. As meninas têm as transformações em seus corpos mais cedo do que os meninos. Antes podiam correr, sentar de qualquer jeito, rir alto, etc. Agora, começam as restrições. Meninos podem correr e sentar de qualquer maneira, mas a menina não. Afinal, é uma mocinha e precisa se “comportar”. Perde a liberdade de criança para entrar num mundo desconhecido de adulto com leis e regras próprias. Essa perda custa a ser trabalhada na cabeça do adolescente. Precisa de um tempo para se adaptar à nova ideia e aos novos comportamentos. Ao mesmo tempo em que quer crescer, quer continuar aproveitando as vantagens de ser criança. As transformações visíveis que acontecem no corpo são ao mesmo tempo desejadas e rejeitadas. Daí a tensão tão natural e o conflito interno.

O segundo luto é a perda da dependência e responsabilidade da independência. A dependência dos pais é confortável. Não se preocupar com contas, gastos, agendas e outras responsabilidades é muito bom. Porém onde fica a vontade de crescer? De ser adulto?

E como lidar com as cobranças de pais e professores que veem o adolescente pela altura do corpo e não pela maturidade emocional? Cobram-se responsabilidades que ainda não estão prontos para assumirem. Já reparou que numa festa de crianças, adolescente é considerado adulto e numa festa de adulto ele é criança? Não cabe nem em uma nem em outra fase. Daí a crise de muitos. Para chamar a atenção, ora se comportam como crianças, ora como adultos. Afinal, querem ser notados e aceitos. Deixar de ser criança dependente para se tornar adulto independente é um processo doído, mas necessário. É um luto que abre novos horizontes e permite à pessoa crescer.

O terceiro luto é a mudança no relacionamento com os pais. Na infância, eles representavam um abrigo, porém, agora a relação é conflituosa. Ao mesmo tempo em que os pais querem ver os filhos crescerem e tomarem seus rumos sentem que estão perdendo-os. Os pais também estão vivendo a dor da perda, enfrentado o seu próprio luto. Os pais não sabem como agir, por isso surgem as tensões, as discussões, as proibições, os conflitos. Tanto pais como filhos estão curtindo os seus lutos sem se darem conta disso.

Deixar o mundo infantil, que é conhecido e confortável, para entrar no mundo adulto, que é totalmente desconhecido, causa tensão. No entanto, essa transição é normal e pode ser perfeitamente saudável quando pais e filhos percebem as suas perdas. Conversar sobre elas é importante. A maturidade biológica deve ser acompanhada da maturidade efetiva e intelectual, possibilitando a entrada no mundo adulto.

Aceitar o processo de crescimento dos filhos é um desafio para os pais. Os pais têm dificuldade de entender o isolamento do adolescente e muitos se fecham em ressentimento e sentimento de culpa. Na realidade, o adolescente precisa dessa distância, porque é uma defesa diante da crise que está enfrentando de deixar de ser criança para se tornar adulto. Rejeitam o modelo dos pais, mas adotam de outros adultos. Lá na frente, resgatam o modelo rejeitado se tiveram uma boa base de valores morais e cristãos quando crianças. É só dar tempo ao tempo.

Não é fácil para os pais e também não é para os filhos. Normas claras, autoridade de vida, conversa e muito compromisso com Deus são alguns dos ingredientes necessários para tornar essa tensão saudável. Crescem os filhos adolescentes. Crescem os pais de adolescentes.


* ABERASTURY, A.; KNOBEL. M. Adolescência Normal: Um Enfoque Psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

Nancy G. Dusilek
Educadora, RJ

Arquivo Visão Missionária 2T07

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